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Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento: “Discussões pela sustentabilidade do setor ainda são muito simplificadas

Escrito por   em 30/07/2023

No mais recente episódio de Futuro Talks, Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, aborda as alternativas para o setor alcançar a sustentabilidade

Os desafios atuais do setor da saúde têm feito com que os players busquem alternativas em diversas frentes, como novos modelos de remuneração, formação de ecossistemas, verticalização e inovação por meio de startups e tecnologias. Mas essas discussões sobre os novos rumos ainda ocorrem de forma simplificada, muito focadas em resultados e não de maneira estrutural, em que se olharia o todo, inclusive no contexto de modelos de negócio e formas de contrato. Essa é a visão de Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, entrevistado no mais recente episódio do Futuro Talks.

Para Parrini, as instituições que compõem os segmentos da saúde dependem umas das outras para que o sistema seja sustentável e, se cada um apenas apontar dedos e olhar para seus próprios interesses, o debate não será construtivo. Por isso, as discussões precisam cada vez mais caminhar para a questão da custo-efetividade, passando a medir de forma mais atenta a qualidade – inclusive dando mais transparência a indicadores – ao invés de mirar apenas volume e resultados. Segundo ele, os hospitais evoluíram muito ao longo do tempo, mas o conceito de atendimento é o mesmo de séculos atrás, daí a importância de se olhar outras formas de atuar e fomentar a inovação para preparar o setor para uma transformação inevitável que deve ocorrer ao longo dos próximos 10 ou 15 anos – o executivo prevê até mesmo que instituições como o Moinhos não se limitarão aos atendimentos dentro de suas estruturas físicas, mas conseguirão se expandir de outras formas.

Ao longo de sua carreira, Parrini já atuou na área de consultoria e nos setores hoteleiro e de óleo e gás, até ingressar na saúde em 2007 como CFO do Moinhos – em 2016 assumiu a posição de CEO. Pelo seu histórico, ele traz um olhar econômico para a instituição, mas reconhece que na saúde, ainda mais em um hospital filantrópico, o foco no paciente é o que dita as movimentações. Durante a conversa, ele ainda contou que o hospital tem olhado de forma muita criteriosa às oportunidades de crescimento, mas que algumas ações já estão em andamento, como a conclusão de um novo prédio no completo localizado em Porto Alegre, com expansão da área de pesquisa e de leitos de UTI.

Confira a entrevista a seguir:

Aparentemente, em 2023 o cenário desafiador da saúde já é de conhecimento de todos. Como você vê 2024? Você vê a situação melhorando?

Mohamed Parrini – Eu costumo falar com meu time que eu nunca olho números. Por trás de todo o número, de todo o dado, existem pessoas, existe uma cultura, um modelo mental, existe medo, existem desejos. Então, o que a gente vive hoje – crise, oportunidade, euforia, bolhas – são fruto das expectativas, dos medos. A gente tem que sempre analisar o que está por trás, quais são os contratos – e eu não estou falando do contrato de papel, estou falando do contrato social. Qual é o contrato que a gente tem assinado? A minha perspectiva é que a gente precisa avaliar o que está acontecendo antes de apontar dedos. Então hoje, como a gente está em crise, há grupos setoriais – quando a gente fala em Brasil – tentando defender seus próprios interesses. E no privado a mesma coisa, uma categoria, apontando o dedo para outra. Quando talvez não tenha um culpado específico, mas a arrumação desses contratos e dessas expectativas não estejam muito claros. Outro tema que é importante: após a pandemia o mundo está diferente, e ele não está melhor. Falávamos que o mundo e as pessoas iam ser melhores. A única coisa que a gente acertou é que ele está diferente, ele mudou, mas não está melhor. As pessoas estão mais ansiosas, mais doentes. A questão do vírus continua entre nós. As pessoas estão buscando mais prevenção. Tudo isso faz mudar o paradigma vigente, até então, da relação custo-preço. Isso tem que ser discutido.

É interessante você trazer essa questão, porque existia uma grande expectativa de que agora as pessoas iriam dialogar mais – inclusive dentro da saúde. Mas isso não se traduziu, pelo que você está me trazendo, em ações práticas.

Mohamed Parrini – A gente continua com discursos vazios, muito básicos.

A tecnologia, pelo menos, acelerou.

Mohamed Parrini – A tecnologia é um elemento extremamente importante. Dependendo da velocidade que uma tecnologia entra, ela pode sim fazer uma disrupção da própria cultura. A gente está vendo aí o ChatGPT. Mas no geral, a tecnologia é matricial, acompanha a sociedade.

Mas voltando ao debate do sistema…

Mohamed Parrini – Hoje o que a gente vê é, de novo, uma discussão em cima de resultados. Uma discussão que busca resultados de curtíssimo prazo, com um excesso de simplificação de que a população não sabe usar a saúde, de que os profissionais médicos carregam a mão na caneta, os hospitais não são custo efetivos. Tudo isso é verdade. Só que não é a resposta exata. Eu acho que a gente tem que passar pelo tipo de contrato que a gente assinou. Quais são os incentivos que a gente tem que dar para o sistema poder melhorar? Eu acho que é uma discussão maior. E como toda democracia, nós estamos em um sistema como um sistema biológico – o Bertalanffy fala disso. Então, em um sistema complexo, tudo é muito lento. A gente está falando de reforma tributária já há 20 anos. Tudo é uma grande negociação. Mas é importante que a gente tenha consciência. A mudança tem que ser feita, os resultados têm que vir, porque nós precisamos que todos os elos do sistema estejam bem. Por exemplo, na pandemia, as operadoras de saúde estiveram muito bem, os resultados foram magníficos. A gente não via esse barulho todo acontecendo. E de repente, veio para o lado dela, e aí tem que fazer o barulho mesmo. Mas eu acho que a gente tem que olhar enquanto a gente está bem. Eu acho que esse ano a gente vai sair desse momento, porque está havendo repactuação de contratos, remodelagem dos próprios preços, reprecificação dos serviços, correções de excessos. A gente viu uma série de operadoras ajustando coisas que precisavam ser ajustadas e estão sendo feitas. Os hospitais cedendo. Eu, por exemplo, estou cedendo dentro do que eu posso para colaborar.


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